Maria Rita Kehl

SOBRE: Maria Rita Kehl, psicanalista e ensaísta. Atende pacientes adultos em consultório particular desde 1981; entre 2006 e 2011 atendeu também na Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST. Entre 1974 e 1981 foi jornalista em tempo integral, trabalhando em tabloides de oposição à ditadura militar com passagens pelo Movimento e em Em Tempo como editora de cultura. A partir de 1981, começa a atividade de psicanalista em consultório particular, sua principal atividade profissional desde então. Continua a escrever eventualmente para a mídia impressa. Em 2010 manteve durante 9 meses uma coluna no jornal O Estado de São Paulo, que foi cancelada durante a campanha da presidente Dilma Roussef. Autora de vários livros, entre os quais Ressentimento (Ed. Casa do Psicólogo, 2004), Deslocamentos do Feminino (Imago 1998, a ser reeditado pela Cosac&Naifi em 2016) e O Tempo e o Cão, atualidade das depressões (Boitempo 2009, prêmio Jabuti na categoria de não ficção em 2010). Entre 2012 e 2014 integrou a Comissão Nacional da Verdade com pesquisa sobre graves violações de direitos humanos contra indígenas e camponeses.

PALESTRA DE ABERTURA (9H30 - 11H00)
TEMA: O sujeito da psicanálise é um sujeito social

RESUMO:

    Um dos grandes mal entendidos produzidos pela abordagem da obra de Freud a partir do pensamento de Melanie Klein - a chamada psicanálise de "linha inglesa" - é a ideia de que o objeto da investigação psicanalítica, assim como da cura clínica, seja o indivíduo (no sentido como as sociedades liberais modernas consideravam o "self made man" da economia capitalista). O objeto da psicanálise não é o indivíduo, é o sujeito do inconsciente, este caldeirão vivo de pulsões, fantasias, recordações - "vagas emoções e pensamentos imperfeitos", como escreveu Freud na Interpretação dos Sonhos. E o inconsciente, como Freud também nos revelou, não é "individual": é um depósito vivo de impressões, percepções e memórias onde o individual, o familiar, o grupal e o social se confundem. Por isso Lacan teria dito, em uma de suas boutades, que psicanálise é sempre uma "psicologia de grupo".
    O sujeito sofre não apenas em razão de seus mal entendidos infantis, do recalcamento de seus excessos pulsionais ou de seu "complexo de Édipo". Sofre por ser depositário de fantasias inconscientes de seus pais, por não compreender seu lugar na longa cadeia geracional que o precedeu, pelas dificuldades de encontrar um papel significativo nas sociedades modernas (onde, ao contrário das sociedades tradicionais, os lugares e papéis sociais não são predestinados pelo nascimento). Sofre por tentar decifrar o que o Outro deseja dele e, em seguida, luta -na análise- para se liberar dessa escravidão. 
    Por tudo isso, creio que cabe uma conferência psicanalítica em um congresso psicodinâmico

Jornada Psicodinâmica 2014 - 2018